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Manuel Alegre - vida e obra

por Dona Professora, em 31.01.14

 

Quase um auto-retrato

Aos vinte e poucos anos escrevi: “meu poema rimou com a minha vida”. Era ainda muito cedo, não sei sequer se é verdade, embora muitas coisas me tivessem já acontecido: amores, partidas, guerra, revoltas, "prisões baixas". O que mais tarde me levaria a dizer: "biografia a mais". Muito antes, lá pelos vinte, tinha lido uma frase de André Gide que me impressionou. Dizia ele: "a análise psicológica deixou de me interessar desde o dia em que cheguei à conclusão de que cada um é o que imagina que é." Até que ponto sou o que me imaginei ser? Se soubesse pintar (mas não sei) faria o meu auto-retrato a olhar para ontem, ou para dentro, ou para outro lado. Distraído-concentrado, presente-ausente, um não sei quê.

Acusam-me de altivez e narcisismo. É sobretudo reserva, timidez e uma incapacidade física de praticar uma certa forma portuguesa de hipocrisia e compadrio. Ou talvez um tique que herdei de família: levantar a cabeça, olhar a direito.

Tenho desde pequeno a obsessão da morte. Não o medo, mas a consciência aguda e permanente, sentida e vivida com todo o meu ser, de que tudo é transitório e efémero e não há outra eternidade senão a do momento que passa. Talvez por isso seja um homem de paixões. Mas não vivi nunca póstumo, nem me construí literariamente. Sei que nenhum verso vence a morte. E não acredito sequer na literatura.

Na poesia, sim. Mas como ritmo, como música interior, canto e encanto, incantação, exorcismo, uma forma de relação mágica com o mundo. A um professor brasileiro que trabalhava numa tese sobre mim, respondi: "Escrita e vida são inseparáveis. Embora eu entenda a poesia como experiência mágica, algo que está aquém e além da literatura."

Penso, como Teixeira de Pascoais, que "o ritmo é a substância das cousas" e que "a poesia nasceu da dança." Talvez por isso eu goste de flamenco, a música e a dança que estão mais perto do ritmo primordial, da batida do coração e da própria pulsação da terra. Gosto de flamenco e de um certo tipo de fado e dos tangos de Francisco Canaro. E também de Bach e Mozart. Pelas mesmas razões: o ritmo. E da poesia de Lorca que, ao contrário de ideias feitas, nada tem de folclórico ou regionalista, antes se aproxima das energias primitivas e essenciais e é quase, como diria ainda o autor de Marânus, "um bailado de palavras."

Não sei se, como queria Rimbaud, consegui fazer "coincidir a essência da poesia com a existência do poema." Cantei, canto. Demanda, errância. Não há senão esse procurar. Na vida, na escrita. Quando faço aquilo de que gosto, faço-o intensamente. A pesca, por exemplo. Ou a viagem. Ou a partilha: um bom jantar em família com alguns amigos, uma reunião conspirativa, a camaradagem na nunca perdida ilusão de que a revolução ainda é necessária e possível.

Diria que é outra forma de escrita. Intensa, densa, tensa. Como o amor. E talvez a morte.

Herdei de minha mãe uma certa energia, o gosto da intervenção. De meu pai, o desprendimento, uma irresistível e por vezes perigosa tendência para o desinteresse. Inclusivamente pelos bens materiais. Não é por acaso que só me prendo realmente ao que poderia chamar as minhas armas: espingardas propriamente ditas, "gostei muito de caçar", canas de pesca, carretos, canetas, livros (alguns livros), discos. Os grandes espaços: o deserto, o Atlântico, o Alentejo. E sítios. Certas cidades. Outrora agora: Coimbra, Paris, Roma, Veneza, Lisboa. Certos lugares: o Largo do Botaréu, em Águeda, o rio, a ria (de Aveiro), Barra, Costa Nova. Mais recentemente: Foz do Arelho, Barragem de Santa Clara. Certos recantos: a minha casa de Águeda, o solar, já perdido, da minha avó, em S. Pedro do Sul, as casas da minha tia e meus primos na Anadia, a casa de Sophia, a minha casa em Lisboa. A minha mulher, os meus filhos, a minha irmã, os meus amigos. Uma grande saudade dos que morreram, principalmente de meu pai, a quem, por pudor e reserva (somos parecidos), nunca cheguei a dizer em vida o que gostaria de lhe dizer aqui.

 

 

Fonte: http://www.manuelalegre.com/101000/1/index.htm  (consultado em 31/01/2014)

 

A propósito do livro Cão como nós, foi proposto o trabalho de pesquisa sobre o seu autor, Manuel Alegre. Fica a hiperligação do powerpoint realizado pelo Diogo Braga para melhor conhecer este autor. 

 

Manuel Alegre.ppsx

 

Diogo Braga, 7.º ano

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publicado às 11:16


Expressões idiomáticas

por Dona Professora, em 27.01.14
  
    
                        

  
  
 

 

“cabeça de alho chocho”

“atirar-se de cabeça”

“perder a cabeça”

“sem pés nem cabeça”

“cabeça nas nuvens”

“cabeça na lua”

“dar uma mãozinha”

“com a mão na massa”

“dar a mão à palmatória”

“dar o braço a torcer”

“de mão beijada”

“com uma mão à frente e outra atrás”

“abrir os olhos”

“couro e cabelo”

“estar pelos cabelos”

“falar pelos cotovelos”

“dor de cotovelo”

“ter as costas largas”

“ter as costas quentes”

“voltar as costas”

“andar com a casa às costas”

“pôr para trás das costas”

“com uma perna às costas”

“ferver em pouca água”

“trazer água no bico”

“fazer uma tempestade num copo de água”

“receber um balde de água fria”

“ficar em águas de bacalhau”

“ficar a chuchar no dedo”

“comprar gato por lebre”

“estar/ficar à somba da bananeira”

“dar com a língua nos dentes”

“armar-se até aos dentes”

“bater na mesma tecla”

“bater as botas”

“acordar com os pés de fora”

“onde Judas perdeu as botas”

“pontapé na gramática”

“ter a faca e o queijo na mão”

“barata tonta”

“engolir um sapo”

“agarrar com unhas e dentes”

“abanar o capacete”

“afogar as mágoas”

“a pensar morreu um burro”

“apanhar com a boca na botija”

“bater no ceguinho”

“andar na boa vida”

“estar por um fio”

“acertar o passo”

“dormir como uma pedra”

“nem que a vaca tussa”

“apertar o cinto”

“não aquece nem arrefece”

“estar de pé atrás”

“não arredar pé”

“cheirar a esturro”

“chorar a rir”

“chover a cântaros”

“não mexer uma palha”

“pagar na mesma moeda”

“receber de braços abertos”

“ter lata”

“passar pelas brasas”

“nem pensar duas vezes”

“passar dos limites”

“pagar caro”

“dois dedos de conversa”

“ir pentear macacos”

“ter macaquinhos no sótão”

“acertar agulhas”

“gatos pingados”

“chorar sobre o leite derramado”

“dar banho ao cão”

“pôr o rabo entre as pernas”

“andar aos papéis”

“dar água pela barba”

“baixar a bolinha”

“pôr as cartas na mesa”

“abrir o jogo”

“coisas do arco da velha”

“comer como um abade”

“pisar ovos”

 

                                      5ºA e 5ºB

                     ...            
     
                                                                                                             
        

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publicado às 20:53


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