Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Literatura Fantástica (VII)

por Dona professora, em 28.04.14

John levou algum tempo a perceber o que tinha sucedido: um lustre tinha caído ruidosamente no meio daquele salão. A escuridão da divisão não deixava ver nada. Entretanto, lembrou-se da lanterna que tinha na sua mochila. Uma luz trémula nascia das suas mãos e conseguiu ver que uma nuvem de pó começava a assentar e deixava entrever por entre a escuridão. Era possível ver através do feixe de luz as partículas de pó a brilhar.  Apontava a luz para diversos pontos da sala, tentando perceber como era e o que restava da sala depois daquele estrondo. Sempre que apontava a luz ouvia do lado contrário uma voz:

-Agora tens de nos encontrar! Anda!

-Quem és tu? – perguntou incrédulo por estar a  falar com alguém que não conseguia ver – Mary Anne! Onde estás? És tu?... O QUE FIZESTE COM ELA!?

John não sabia com quem falava, se aquela era a voz de Mary Anne ou de outra pessoa desconhecida. Um turbilhão de pensamentos e emoções passavam-lhe pela cabeça. Sentia-se confuso com aquelas vozes, ou melhor com o eco que vinha de todos os cantos da sala., em tons diferentes. Pareciam diferentes pessoas a falar ao mesmo tempo.

Sentia-se indeciso entre sair dali a correr e não voltar… Sentia-se tentado em ir para casa e que no outro dia quando chegasse à escola, estivesse lá Mary Anne, como sempre à sua espera para falar de livros. Pedia com todas as suas forças que aquilo fosse um sonho ou simplesmente uma brincadeira de mau gosto da colega ou até de terceiros que o quisessem novamente humilhar.

-Novamente caí que nem um patinho… E amanhã vou ser gozado por todos! Raios!  - disse para si mesmo – APAREÇAM! A brincadeira acabou! – acrescentou num tom enraivecido para quem o estivesse a ouvir.

Dado o silencia e a ausência de resposta, volta costas àquele cenário dantesco. Bate com a porta e o espelho que estava numa parede cai com o impacto.

-Era o que me faltava. Até um espelho parti! Que importa, são só mais sete anos de azar nesta vida miserável! Quem aguentou 13 aguenta mais sete anos!

John encontra-se agora no corredor. Tinha de escolher o caminho para sair dali. Mas, como não lhe apetecia alimentar a fome de enxovalhamento por parte dos seus colegas, não esteve com meias medidas, e decidiu sair por onde entrara. Encaminhou-se para a casa de banho, entrou e qual não é o seu espanto ao encontrar uma divisão totalmente às escuras.

-Mas onde está o buraco por onde entrámos? Mau, já estão a levar a brincadeira muito longe… Para além de gozões agora devem ser pedreiros amadores!

Não perdeu tempo a pensar no facto de o buraco estar agora fechado. Voltou ao corredor, pois tinha de encontrar uma forma de sair dali. Abriu uma porta para uma outra divisão onde ainda não tinha entrado.

-Mas que coisa estranha… ia jurar que o salão era do outro lado! – exclamou intrigado.

Estava novamente no salão onde o lustre tinha desabado. Saiu, voltou ao corredor e abriu uma terceira porta. Estranhamente, entrou novamente no salão.

-Afinal o que se passa? Estou a alucinar? Acho que conseguiram… Estou a ficar completamente desorientado!

Embrenhado neste estado de confusão e numa imensidão de hipóteses sobre o que estava acontecer, o salão iluminou-se de repente num tom azulado. A lareira tinha-se acendido e ouvia-se o crepitar de lenha que não existia naquele fogo azul.

Naquele momento John apercebeu-se que aquilo não era uma mera partida dos seus colegas. Assustado e numa tentativa de se convencer que estava a sonhar colocou a sua mão sob aquele fogo azulado. A sensação de queimadura foi acompanhada por uma onda de calor que percorreu todo o seu corpo, desde os pés até à cabeça. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 12:53


Literatura Fantástica (VI)

por Dona professora, em 03.04.14

Avançou decidida para a porta, esticou a mão, rodou a maçaneta empoeirada e a luz de um vitral antiquado ao fundo iluminava o longo corredor. Dali conseguiam ver as várias portas antigas e desgastadas pelo tempo de abandono. Havia candelabros nas paredes entre essas portas com restos de cera. Uma das velas tinha pingado para cima de uma velha armadura. Do lado esquerdo viam-se retratos de uma família que provavelmente ali teria vivido e, quem sabe, morrido. As fotografias já tinham uma cor amarelada e em algumas nem se percebiam bem as caras. Um pormenor intrigou John: em algumas imagens havia sempre uma criança cuja face não se reconhecia, pois a fotografia tinha sido rasgada.

-Já viste? Há sempre uma criança irreconhecível. Seria assim tão má? – comentou John

-Há famílias com histórias estranhas, se calhar os pais nem gostavam dela. Às vezes nem vale pena pensar no assunto. Esta família merece o nosso respeito e vamos deixar tudo como está – rematou Mary Anne.

-Espera… esta cara… faz-me lembrar alguém… mas mais velho… parece alguém que conheço, não sei quem – diz ele intrigado e tentando associar aquelas caras a alguém.

Era uma fotografia onde se podia ver a colina e a casa onde estavam ao fundo. No centro, estava uma família, ou assim parecia ser. Talvez a mãe, o pai e duas crianças.

-Sim, claro! Claro que conheces essas pessoas que se calhar viveram cá há 100 anos. Estás bem conservado para a idade – respondeu seca e ironicamente.

John tentou explicar que não conhecia exatamente aquelas pessoas, mas que eram parecidas ou até podiam ser familiares afastados de alguém que conhecera. Em vão. Mary Anne avançou sem hesitações pelo corredor. John continuava petrificado a olhar para aquelas fotografias. De repente ouviu-se um forte ruído e um grito, John deixou cair a moldura que se partiu ao embater na madeira velha. Pelo sim, pelo não, guardou a fotografia no bolso. A amiga tinha caído e ele foi em seu socorro.

Com a queda Mary Anne tinha aberto uma porta. Levantou-se rapidamente, mas quando John lhe perguntou se estava bem, respondeu:

-Ai!!! Hummm… - hesita - Magoei o tornozelo. Acho que o torci, mas dá para andar. – Parecia procurar na sua mente uma resposta que convencesse John a desviar a sua atenção.

-Queres voltar para trás? Se calhar era melhor pores gelo – sugeriu de forma preocupada o amigo.

-Não!!! Isto passa! – respondeu apressadamente.

-Tens a certeza? – estranhou – Pelo teu grito parecia doloroso.

Ela ignorou o comentário do colega, sacudiu a poeira dos joelhos e seguiu o caminho na direção da porta que estava agora aberta.  Mary Anne espreitou para dentro daquela divisão. Quando entrou, de repente o lustre com velas empoeiradas iluminou-se durante alguns segundos. As suas velas como que milagrosamente se acenderam para se apagarem imediatamente depois.   

-Viste aquilo? Que estranho… Estranhíssimo… Impossível… Estamos a sonhar? Também viste? – disparou John, mostrando todo o seu medo – Cruzes, canhoto! Vamos embora!

Aquela situação poderia ser imaginação dele, porém o cheiro da cera inundava o espaço, comprovando a sua teoria. Estava verdadeiramente apavorado. Para agravar o momento já de si assustador, ouviu-se o eco de uma voz imatura, inocente e suave:

-Queres brincar às escondidassssssssssss?? Começa a contar…

As vozes ecoavam em diferentes cantos da sala numa cantilena infantil.

-Vamo-nos esconder! Encontra-nos!

John sentiu uma voz soprar-lhe ao ouvido… ora do lado esquerdo ora do lado direito.

-Não faças batota… - disse uma voz sibilante…

-Escondidas? Mary Anne, não estamos em condições de jogos de criancinhas! Para de me tentar assustar… Ouviste?

De repente instalou-se o silêncio e Mary Anne não respondeu. O silêncio foi interrompido por um estrondo.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:59


Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog

Arquivo

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D

subscrever feeds