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Literatura Fantástica (XIII)

por Dona professora, em 17.07.14

-Comecemos pelo início... Há muito tempo... mesmo há muito tempo... melhor, há cerca de 100 anos vivia aqui a minha família. Éramos uma família feliz, mas com hábitos peculiares. Descendemos de uma linhagem de feiticeiros, no entanto, sempre recusamos esta tradição, porque os nossos antepassados tiveram fins trágicos. De modo a evitar uma infelicidade igual procuramos viver uma vida o mais normal possível. No entanto essa nossa liberdade tinha um preço. Para não sermos atormentados por uma criatura diabólica fizemos um pacto com ela. Em cada dez anos esta teria de receber uma alma para se alimentar. Esta criatura vivia num compartimento secreto na cave, nos calabouços da casa. Certo dia, lembro-me do momento em que toda a casa tremeu e por todo lado ecoava um barulho ensurdecedor. Chegara o momento do sacrifício e de entregar uma nova alma. A última vez que isso tinha acontecido eu ainda não era nascida. Os meus pais falavam apenas por códigos sobre o dia em que tinham alimentado a criatura pela última vez. Parecia ser algo proibido e eles apenas se referiam como “aquele dia que nós sabemos”.  Os meus pais sabiam que agora tinham novamente de fazer um sacrifício, mas também sabiam que a criatura iria pedir uma alma jovem. E por jovem queria dizer uma criança, ou seja, um de nós. Obviamente que os meus pais recusaram. O castigo foi ainda mais trágico do que qualquer outra tragédia que tenha marcado a nossa família. A criatura resolveu ficar com o meu irmão e os meus pais desesperados tentaram negociar com a criatura faminta. Em vão...

-Uau... isso parece demasiado dantesco e típico de um filme de terror – comentou incrédulo John sem saber se deveria acreditar ou não nas palavras de Mary Anne – Mas espera... tu disseste que isto tudo aconteceu há cem anos! Cem anos?! Como assim se tu estás aqui?

Mary Anne explicou então que no momento em que a criatura roubou a alma do seu irmão os pais tentaram libertar o filho. No meio da confusão, a criatura zangou-se, perdeu a cabeça e criou uma tempestade de neve cujo manto cem anos depois ainda cobria o jardim e a casa. De repente caiu uma árvore, que partiu o telhado, entrou pela casa de banho e matou os seus pais que se encontravam ali trancados protegendo a filha mais velha.

-Ah... isso explica a neve e o facto de a árvore estar ali no meio do jardim, imponente e sem neve! Mas não explica porque é que me atraiste até aqui nem o teu aspeto juvenil... Afinal tu poderias ser a minha bisavó!

-Respeitinho aos mais velhos! – sorriu secamente – Mas continuemos e tudo fará sentido para ti. No momento em que a criatura levou os meus pais deixou-me um recado. Avisou-me que eu ficaria presa eternamente no meu corpo de adolescente, sozinha no mundo, até lhe dar uma nova alma. Até lá poderia conviver com o meu irmão, Tovin, mas este nunca seria real de carne e osso. 

John ouvia atento aquela história mirabolante, arregalando os olhos em cada frase. Mary Anne continuou a contar-lhe o que sucedera nos anos seguintes. Foi então que explicou que tinha uma missão na vida: recuperar o seu irmão! Para isso precisava oferecer uma alma à criatura por forma a que Tovin recuperasse a forma humana e tentassem viver uma vida dentro da normalidade possível.

-Ok! Mas… Porquê eu? Queres matar-me? É isso? – perguntou John com um sentimento de pavor a subir-lhe pela espinha.

-Querer, queria! Tu eras um alvo fácil – explicou – O problema é que me habituei a ti a afeiçoei-me a ti. Seria injusto, principalmente depois de tudo o que passaste nesta casa e por nunca teres desistido de mim, ou melhor, de me salvar... Por isso, como posso eu matar-te!?

-Agradecido por essa decisão tão bondosa! – disse John com o sarcasmo que aprendera com Mary Anne.

-Portanto agora não sei o que fazer! – disse olhando com tristeza para Tovin que já saira de trás da caixa e já brincava novamente com os seus legos.

-Então, já que me livraste da morte certa, temos de pensar seriamente em como salvar o teu irmão! Dizias que a tua família era uma família de feiticeiros que recusava usar magia para sobreviver! Não haverá livros por aí que nos possam ajudar? – John tentou ser racional no meio daquela confusão e histórias rocambolescas.

-Quer dizer está ali um baú cheio de escritos que os meus pais juraram nunca abrir – disse, apontando para uma arca antiga.

A arca tinha cerca de um metro quadrado, era preta com tachas douradas que formavam um pentagrama invertido. Resolveram abrir o baú. A fechadura estava perra, mas com a ajuda do canivete que trouxera de casa conseguiram forçar o cadeado. Sentraram-se os dois no chão, em posição de chinês e vasculharam tudo o que lá havia. Eram papéis com pó amarelados com uma caligrafia impecavelmente irrepreensível. Existiam receitas para tudo: invisibilidade, superforça, mutação, visão ultradimensional, imortalidade e tudo aquilo que possa passar pela cabeça de alguém ou que até mesmo ninguém ousara pensar. 

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publicado às 12:31


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