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Literatura Fantástica (VI)

por Dona professora, em 03.04.14

Avançou decidida para a porta, esticou a mão, rodou a maçaneta empoeirada e a luz de um vitral antiquado ao fundo iluminava o longo corredor. Dali conseguiam ver as várias portas antigas e desgastadas pelo tempo de abandono. Havia candelabros nas paredes entre essas portas com restos de cera. Uma das velas tinha pingado para cima de uma velha armadura. Do lado esquerdo viam-se retratos de uma família que provavelmente ali teria vivido e, quem sabe, morrido. As fotografias já tinham uma cor amarelada e em algumas nem se percebiam bem as caras. Um pormenor intrigou John: em algumas imagens havia sempre uma criança cuja face não se reconhecia, pois a fotografia tinha sido rasgada.

-Já viste? Há sempre uma criança irreconhecível. Seria assim tão má? – comentou John

-Há famílias com histórias estranhas, se calhar os pais nem gostavam dela. Às vezes nem vale pena pensar no assunto. Esta família merece o nosso respeito e vamos deixar tudo como está – rematou Mary Anne.

-Espera… esta cara… faz-me lembrar alguém… mas mais velho… parece alguém que conheço, não sei quem – diz ele intrigado e tentando associar aquelas caras a alguém.

Era uma fotografia onde se podia ver a colina e a casa onde estavam ao fundo. No centro, estava uma família, ou assim parecia ser. Talvez a mãe, o pai e duas crianças.

-Sim, claro! Claro que conheces essas pessoas que se calhar viveram cá há 100 anos. Estás bem conservado para a idade – respondeu seca e ironicamente.

John tentou explicar que não conhecia exatamente aquelas pessoas, mas que eram parecidas ou até podiam ser familiares afastados de alguém que conhecera. Em vão. Mary Anne avançou sem hesitações pelo corredor. John continuava petrificado a olhar para aquelas fotografias. De repente ouviu-se um forte ruído e um grito, John deixou cair a moldura que se partiu ao embater na madeira velha. Pelo sim, pelo não, guardou a fotografia no bolso. A amiga tinha caído e ele foi em seu socorro.

Com a queda Mary Anne tinha aberto uma porta. Levantou-se rapidamente, mas quando John lhe perguntou se estava bem, respondeu:

-Ai!!! Hummm… - hesita - Magoei o tornozelo. Acho que o torci, mas dá para andar. – Parecia procurar na sua mente uma resposta que convencesse John a desviar a sua atenção.

-Queres voltar para trás? Se calhar era melhor pores gelo – sugeriu de forma preocupada o amigo.

-Não!!! Isto passa! – respondeu apressadamente.

-Tens a certeza? – estranhou – Pelo teu grito parecia doloroso.

Ela ignorou o comentário do colega, sacudiu a poeira dos joelhos e seguiu o caminho na direção da porta que estava agora aberta.  Mary Anne espreitou para dentro daquela divisão. Quando entrou, de repente o lustre com velas empoeiradas iluminou-se durante alguns segundos. As suas velas como que milagrosamente se acenderam para se apagarem imediatamente depois.   

-Viste aquilo? Que estranho… Estranhíssimo… Impossível… Estamos a sonhar? Também viste? – disparou John, mostrando todo o seu medo – Cruzes, canhoto! Vamos embora!

Aquela situação poderia ser imaginação dele, porém o cheiro da cera inundava o espaço, comprovando a sua teoria. Estava verdadeiramente apavorado. Para agravar o momento já de si assustador, ouviu-se o eco de uma voz imatura, inocente e suave:

-Queres brincar às escondidassssssssssss?? Começa a contar…

As vozes ecoavam em diferentes cantos da sala numa cantilena infantil.

-Vamo-nos esconder! Encontra-nos!

John sentiu uma voz soprar-lhe ao ouvido… ora do lado esquerdo ora do lado direito.

-Não faças batota… - disse uma voz sibilante…

-Escondidas? Mary Anne, não estamos em condições de jogos de criancinhas! Para de me tentar assustar… Ouviste?

De repente instalou-se o silêncio e Mary Anne não respondeu. O silêncio foi interrompido por um estrondo.

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publicado às 14:59


2 comentários

De El Fatela a 03.04.2014 às 16:00

Está bastante bem escrito e muito emocionante. Anseio por mais

De Aluna da professora a 04.04.2014 às 21:51

Fico nevosa a ler! Até parece que entrei na história!

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