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NOTA INTRODUTÓRIA:

No final da unidade didática relacionada com o estudo do Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente, os alunos do 9º ano adaptaram a obra para Português Contemporâneo. Desta forma não só aprofundaram o seu conhecimento sobre o texto como tiveram a oportunidade de refletir sobre a evolução da língua portuguesa ao longo dos tempos.  Nesse sentido, periodicamente irão sendo publicadas as cenas adaptadas pelos alunos no blog.

 

CENAS I E II

 

A primeira personagem é um fidalgo que chega com um Pajem, que lhe levava uma cauda de manto muito comprido e uma cadeira de espadas. Antes do fidalgo chegar o Diabo comenta assim:

 

Diabo: à barca, à barca oulá!

Que boas marés temos.

Ora venha a barca para trás.

Companheiro: Já está! Já está!

Diabo: Muito bem!

Vai já enfeitar a barca

Para a gente que aí vem

À barca! A barca hu!

Despachemo-nos que o tempo não para

Graças a Berzebu

Vamos! O Que estás a fazer?

Esvazia esse espaço.

Companheiro: Faço logo que possa.

Diabo: Mexe esse rabo.

Afrouxa e alivia essa corda.

Companheiro: Ó caça, ó iça, iça!

 

 

 

Diabo- ó precioso Dom Henrique

Já aqui vens? Que coisa é esta!?

 

Chega o fidalgo ao pé da barca

 

 

Fidalgo - esta barca, onde vai agora

Que já está pronta para partir?

Diabo - Vai para a ilha perdida,

E há de partir sem demora.

Fidalgo - E é onde vai a senhora?

Diabo - Senhor,  ao seu serviço.

Fidalgo- Essa barca parece muito pobre

Diabo - Só porque a vês de fora.

 

Fidalgo- Mas para que terra vais?

Diabo - Para o inferno senhor

Fidalgo– essa terra não me atrai

Diabo- O quê Até aqui te achas importante?

Fidalgo- e que passageiro deseja entrar nessa barca?

Diabo- vejo te a ir para o nosso cais, daqui a pouco

 

Fidalgo- parece-te assim?

Diabo- o que te defende?

Fidalgo- Deixei na outra vida quem reze por mim

Diabo- Quem reze por ti?! Hi hi hi

E tu fizeste o que quiseste

Pensando que te salvavas

Porque rezam por ti?

 

Embarca, embarca

Que hás de entrar no fim.

Manda meter a cadeira

Onde se sentou teu pai

 

Fidalgo- Quê? Quê? Quê? É mesmo verdade?

Diabo- Embarcou! Embarca agora tu depressa

Que o que fizeste em terra

Aqui pagarás!

 

O Fidalgo

 

 

 

Pois agora morto

Teras de passar o rio

Fidalgo- E não há outro navio?

Diabo- Não senhor, é neste que as de embarcar

Porque no momento em que morreste

Deste-me logo sinal

Fidalgo- E que sinal foi esse?

Diabo - O que gozaste em vida

 

Fidalgo - vou-me á outra barca

Hou da barca! Para onde vais?

Ah barqueiro! Não me ouves?!

Responde! Oulá hou!

Meu deus, que estou bem tratado

Dá-me licença?!

Que paciente que sou!

 

Anjo - Que queres?

Fidalgo - diz-me, esta é a barca do paraíso?

Anjo - Sim, e o que pretendes?

Fidalgo - Que me deixes entrar,

Sou nobre,

É bom que me recolhas!

 Anjo- Não embarcam maus

Neste batel santo.                                                                     

Fidalgo- Não sei porque achas mal                                                                        

Que eu entre                                                                        

Anjo- Para sua vaidade                                                                                        

Muito estreita é esta barca                                                             

Fidalgo- Para um senhor da minha classe                                                            

não há aqui mais cortesia?                                                              

Venha a prancha e apetrechos!

leva-me desta ribeira!               

Anjo- Não há maneira

Para entrares neste navio.

 O outro vai mais vazio:

a cadeira entra;

e o teu manto de longa cauda caberá,

e você também. 

 

Você vai mais espaçoso

com sua vaidade,

pensando na tirania

 do pobre povo que só se queixava;                 

e porque, de bondade,

 ignoraste os mais necessitados,

 achava-te pior

 quando eras mais vaidoso 

                       

Diabo- À barca, à barca, Senhores!

Ó mar tão maravilhoso!

Um vento que mata

e remadores corajosos!

 

 

Diz, cantando:

 

 

           " vocês virão à minha mão,

           " à minha mão me virão;

           " e vocês virão

           " como peixes nas redes."

 

Fidalgo- Ao inferno, todavia!

Inferno há i pera mi?

Ó triste! Enquanto vivi,

 não cuidei do que eu devia:

julguei que era imaginação,

pensava ser adorado;

Confiei nas prerrogativas da minha classe social,

e não vi que me perdia.

 

Venha essa prancha! veremos

essa barca de tristeza 

Diabo- Embarca a sua doçura,

que cá nos entenderemos...

Toma um par de remos,

vamos ver como remas,

e, chegando ao nosso cais,

todos vos vão receber bem.

 

 

Cena I - Luiz Silva, Sofia Shan e António Vasconcellos

Cena II - Fábio Almeida, Gonçalo Vicente  e Lara Custódio 

 

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publicado às 10:18


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