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Literatura Fantástica (IX)

por Dona Professora, em 15.05.14

Perante estes factos, John lançou-se corajosamente e determinado a ver o que estava para lá daquele fogo, apesar de saber que não seria uma sensação agradável. Atirou-se de cabeça como se do outro lado houvesse uma piscina. A dor alastrou pelo seu corpo e não se conseguiu mexer por alguns instantes. Quando se recompôs olhou para trás e não viu a lareira, mas uma porta igual às outras que já vira anteriormente. As paredes apesar de sujas, percebia-se que eram cor-de-rosa. A cama era individual e tinha um dossel, cujo tecido estava carcomido pelas térmitas. Estava impecavelmente arranjada, apesar da teia de aranha que unia as almofadas numa só. Em cima das almofadas poisava um boneco de pelúcia.

Ao lado estava um imponente roupeiro entreaberto. Ao contrário do que seria de esperar, ali não havia teias de aranha. Abriu uma das portas ao acaso e  percebeu que as roupas ali penduradas eram típicas de uma adolescente dos tempos modernos. Faltavam apenas os posters dos One Direction. À esquerda existia uma escrivaninha antiga onde estranhamente se encontravam livros escolares do 8º ano, exatamente o mesmo ano que John frequentava. Um pequeno estojo de maquilhagem encontrava-se aberto e usado, sem pó ou teias de aranha. Ao centro estava um album de fotografias que, apesar do seu aspeto antigo, parecia ser aberto todos os dias. Na capa, a letras douradas e já sumidas, podia ler-se o nome da família: Anderson.

-Mary Anne Anderson – sussurou espantado. 

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publicado às 14:57


Literatura Fantástica (VIII)

por Dona Professora, em 08.05.14

                John assustou-se com o pensamento de que se poderia ter queimado. Mas eis que ao olhar para a mão e depois de controlar o pânico, percebeu que nem sequer uma bolha ou leve queimadura tinha. Levou alguns instantes para se recompor e a curiosidade por aquele fogo azulado falou mais alto. Aproximou-se para perceber o que era aquele fenómeno, afinal não era fogo… Era algo quente e azulado que ardia sem lenha. Então, ao aproximar-se reparou que aquela lareira não era limitada por uma parede. Ele conseguia ver para além do “fogo”, para além da parede que deveria existir.

                Do outro lado estava uma divisão da casa, mas as ondas de calor não permitiam ver com clareza o que se encontrava do outro lado. Via apenas os pés de uma cama alta antiga e uma cadeira de baloiço, cujas costas de verga estavam comidas pelo tempo. Como passar para lá era um pensamento que o assaltava.

                A coragem não era muita, mas a curiosidade era maior. Com receio de estar a ser enganado pelo cansaço psicológico e da sua mente o estar a trair, pegou num dos cacos do que restava do lustre que tinha caído e atirou-o em direção à lareira. O fogo afastou-se perante a trajetória daquele pedaço de vidro. Do outro lado apenas se ouviu o tilintar do caco ao cair no chão. Decidiu, então, experimentar com a sua própria mão. Lentamente aproximou-se do “fogo” azul. A sensação de queimadura voltou a invadi-lo, no entanto, desta vez John foi mais forte e conseguiu perceber que o fogo também se afastava da sua mão. Gradualmente foi empurrando o seu braço até estar quase todo dentro da lareira. Tirou a mão e novamente percebeu que sentia apenas um calor extremo, mas que não se queimava. 

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publicado às 14:56


Literatura Fantástica (VII)

por Dona Professora, em 28.04.14

John levou algum tempo a perceber o que tinha sucedido: um lustre tinha caído ruidosamente no meio daquele salão. A escuridão da divisão não deixava ver nada. Entretanto, lembrou-se da lanterna que tinha na sua mochila. Uma luz trémula nascia das suas mãos e conseguiu ver que uma nuvem de pó começava a assentar e deixava entrever por entre a escuridão. Era possível ver através do feixe de luz as partículas de pó a brilhar.  Apontava a luz para diversos pontos da sala, tentando perceber como era e o que restava da sala depois daquele estrondo. Sempre que apontava a luz ouvia do lado contrário uma voz:

-Agora tens de nos encontrar! Anda!

-Quem és tu? – perguntou incrédulo por estar a  falar com alguém que não conseguia ver – Mary Anne! Onde estás? És tu?... O QUE FIZESTE COM ELA!?

John não sabia com quem falava, se aquela era a voz de Mary Anne ou de outra pessoa desconhecida. Um turbilhão de pensamentos e emoções passavam-lhe pela cabeça. Sentia-se confuso com aquelas vozes, ou melhor com o eco que vinha de todos os cantos da sala., em tons diferentes. Pareciam diferentes pessoas a falar ao mesmo tempo.

Sentia-se indeciso entre sair dali a correr e não voltar… Sentia-se tentado em ir para casa e que no outro dia quando chegasse à escola, estivesse lá Mary Anne, como sempre à sua espera para falar de livros. Pedia com todas as suas forças que aquilo fosse um sonho ou simplesmente uma brincadeira de mau gosto da colega ou até de terceiros que o quisessem novamente humilhar.

-Novamente caí que nem um patinho… E amanhã vou ser gozado por todos! Raios!  - disse para si mesmo – APAREÇAM! A brincadeira acabou! – acrescentou num tom enraivecido para quem o estivesse a ouvir.

Dado o silencia e a ausência de resposta, volta costas àquele cenário dantesco. Bate com a porta e o espelho que estava numa parede cai com o impacto.

-Era o que me faltava. Até um espelho parti! Que importa, são só mais sete anos de azar nesta vida miserável! Quem aguentou 13 aguenta mais sete anos!

John encontra-se agora no corredor. Tinha de escolher o caminho para sair dali. Mas, como não lhe apetecia alimentar a fome de enxovalhamento por parte dos seus colegas, não esteve com meias medidas, e decidiu sair por onde entrara. Encaminhou-se para a casa de banho, entrou e qual não é o seu espanto ao encontrar uma divisão totalmente às escuras.

-Mas onde está o buraco por onde entrámos? Mau, já estão a levar a brincadeira muito longe… Para além de gozões agora devem ser pedreiros amadores!

Não perdeu tempo a pensar no facto de o buraco estar agora fechado. Voltou ao corredor, pois tinha de encontrar uma forma de sair dali. Abriu uma porta para uma outra divisão onde ainda não tinha entrado.

-Mas que coisa estranha… ia jurar que o salão era do outro lado! – exclamou intrigado.

Estava novamente no salão onde o lustre tinha desabado. Saiu, voltou ao corredor e abriu uma terceira porta. Estranhamente, entrou novamente no salão.

-Afinal o que se passa? Estou a alucinar? Acho que conseguiram… Estou a ficar completamente desorientado!

Embrenhado neste estado de confusão e numa imensidão de hipóteses sobre o que estava acontecer, o salão iluminou-se de repente num tom azulado. A lareira tinha-se acendido e ouvia-se o crepitar de lenha que não existia naquele fogo azul.

Naquele momento John apercebeu-se que aquilo não era uma mera partida dos seus colegas. Assustado e numa tentativa de se convencer que estava a sonhar colocou a sua mão sob aquele fogo azulado. A sensação de queimadura foi acompanhada por uma onda de calor que percorreu todo o seu corpo, desde os pés até à cabeça. 

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publicado às 12:53


Literatura Fantástica (VI)

por Dona Professora, em 03.04.14

Avançou decidida para a porta, esticou a mão, rodou a maçaneta empoeirada e a luz de um vitral antiquado ao fundo iluminava o longo corredor. Dali conseguiam ver as várias portas antigas e desgastadas pelo tempo de abandono. Havia candelabros nas paredes entre essas portas com restos de cera. Uma das velas tinha pingado para cima de uma velha armadura. Do lado esquerdo viam-se retratos de uma família que provavelmente ali teria vivido e, quem sabe, morrido. As fotografias já tinham uma cor amarelada e em algumas nem se percebiam bem as caras. Um pormenor intrigou John: em algumas imagens havia sempre uma criança cuja face não se reconhecia, pois a fotografia tinha sido rasgada.

-Já viste? Há sempre uma criança irreconhecível. Seria assim tão má? – comentou John

-Há famílias com histórias estranhas, se calhar os pais nem gostavam dela. Às vezes nem vale pena pensar no assunto. Esta família merece o nosso respeito e vamos deixar tudo como está – rematou Mary Anne.

-Espera… esta cara… faz-me lembrar alguém… mas mais velho… parece alguém que conheço, não sei quem – diz ele intrigado e tentando associar aquelas caras a alguém.

Era uma fotografia onde se podia ver a colina e a casa onde estavam ao fundo. No centro, estava uma família, ou assim parecia ser. Talvez a mãe, o pai e duas crianças.

-Sim, claro! Claro que conheces essas pessoas que se calhar viveram cá há 100 anos. Estás bem conservado para a idade – respondeu seca e ironicamente.

John tentou explicar que não conhecia exatamente aquelas pessoas, mas que eram parecidas ou até podiam ser familiares afastados de alguém que conhecera. Em vão. Mary Anne avançou sem hesitações pelo corredor. John continuava petrificado a olhar para aquelas fotografias. De repente ouviu-se um forte ruído e um grito, John deixou cair a moldura que se partiu ao embater na madeira velha. Pelo sim, pelo não, guardou a fotografia no bolso. A amiga tinha caído e ele foi em seu socorro.

Com a queda Mary Anne tinha aberto uma porta. Levantou-se rapidamente, mas quando John lhe perguntou se estava bem, respondeu:

-Ai!!! Hummm… - hesita - Magoei o tornozelo. Acho que o torci, mas dá para andar. – Parecia procurar na sua mente uma resposta que convencesse John a desviar a sua atenção.

-Queres voltar para trás? Se calhar era melhor pores gelo – sugeriu de forma preocupada o amigo.

-Não!!! Isto passa! – respondeu apressadamente.

-Tens a certeza? – estranhou – Pelo teu grito parecia doloroso.

Ela ignorou o comentário do colega, sacudiu a poeira dos joelhos e seguiu o caminho na direção da porta que estava agora aberta.  Mary Anne espreitou para dentro daquela divisão. Quando entrou, de repente o lustre com velas empoeiradas iluminou-se durante alguns segundos. As suas velas como que milagrosamente se acenderam para se apagarem imediatamente depois.   

-Viste aquilo? Que estranho… Estranhíssimo… Impossível… Estamos a sonhar? Também viste? – disparou John, mostrando todo o seu medo – Cruzes, canhoto! Vamos embora!

Aquela situação poderia ser imaginação dele, porém o cheiro da cera inundava o espaço, comprovando a sua teoria. Estava verdadeiramente apavorado. Para agravar o momento já de si assustador, ouviu-se o eco de uma voz imatura, inocente e suave:

-Queres brincar às escondidassssssssssss?? Começa a contar…

As vozes ecoavam em diferentes cantos da sala numa cantilena infantil.

-Vamo-nos esconder! Encontra-nos!

John sentiu uma voz soprar-lhe ao ouvido… ora do lado esquerdo ora do lado direito.

-Não faças batota… - disse uma voz sibilante…

-Escondidas? Mary Anne, não estamos em condições de jogos de criancinhas! Para de me tentar assustar… Ouviste?

De repente instalou-se o silêncio e Mary Anne não respondeu. O silêncio foi interrompido por um estrondo.

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publicado às 14:59


Literatura Fantástica (V)

por Dona Professora, em 20.03.14

A luz entrava pelo buraco que a árvore tinha feito quando o seu ramo se partiu. Os espelhos já não eram espelhos. Já não se via qualquer reflexo nele, apenas uma camada densa de sujidade. As loiças estavam partidas e os dois jovens esforçavam-se por não cair nos destroços, procurando o melhor local para encaixar o pé. Era difícil não acertar num caco partido, cada passo era anunciado pelo som de mais louça a ser partida. Os azulejos pareciam que já tinham sido brancos e quem sabe se também azuis, mas agora apenas se via o musgo a querer romper pelo canto dos azulejos. A porta estava à distância de um braço e decidem avançar. Eis que senão se detêm numa mancha acastanhada na ombreira da porta já comida pelas térmitas que ali abundavam. Parecia que uma mão ensanguentada se tinha arrastado até à porta. John afasta-se repentinamente.

-O que é aquilo? – perguntou com um olhar enojado e desconfiado.

-O que achas? É uma mancha de sangue… de certeza! – respondeu incisivamente.

John sentiu medo da própria resposta da amiga. Um medo eventualmente comparável ao que alguém sentiu ao deixar aquela marca na porta. Afinal ela tinha razão: parecia mesmo que alguém tinha deixado o seu rasto numa noite de terror. Sentiu um arrepio na espinha e…

-Buh!!!! – gritou-lhe Mary Anne, pondo-lhe a mão nas costas.

John assustou-se e deu um salto. Uma salamandra saiu entre os cacos.

-É o que eu digo… És mesmo menino da mamã!

John engoliu em seco e resolveu ripostar convictamente:

-Agora talvez seja a parte em que eu digo “Vamos fazer um lanchinho”. Deve ser isso que estás à espera que eu diga. Mas na realidade estás ainda com mais medo do que eu! Não te armes em forte! E afinal de contas estamos nisto juntos! Deixa-te de tretas e avancemos!

Mary Anne ficou espantada e percebeu que ele perdera a paciência. Talvez fosse boa ideia mudar de atitude. Não podia ter o prejuízo de o perder.

-Desculpa, mas as tuas hesitações às vezes põe-me à beira de um ataque de nervos. – afirmou com um ar doce e angelical, capaz de convencer qualquer rapaz a obedecer-lhe – Vamos lá!

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publicado às 14:35


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